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NPS: o que é, como calcular e o que a pesquisa acadêmica mostra

NPS é a sigla de Net Promoter Score: uma única pergunta, com nota de 0 a 10, sobre a chance de a pessoa recomendar a empresa a um amigo ou colega. O resultado é o percentual de promotores menos o percentual de detratores, e vai de -100 a +100.

Ilustração retrô de uma calha despejando pessoas em três baldes, com o balde do meio tombado e vazio e uma fila saindo dele

Este guia mostra como calcular, quantas respostas você precisa para o número significar alguma coisa, os benchmarks por setor com amostra e data, e o que a literatura revisada por pares encontrou quando foi testar se o NPS realmente prevê crescimento.

O que é NPS?

O NPS nasceu num artigo de Fred Reichheld na Harvard Business Review, em dezembro de 2003, com o título "The One Number You Need to Grow". A proposta era substituir questionários longos de satisfação por uma pergunta só:

"How likely is it that you would recommend our company to a friend or colleague?"

Em português: qual a chance de você recomendar nossa empresa a um amigo ou colega? A resposta vai de 0 a 10, e as pessoas são separadas em três grupos:

Grupo

Nota

O que significa

Promotores

9 e 10

clientes leais e entusiasmados

Neutros

7 e 8

satisfeitos, mas vulneráveis à concorrência

Detratores

0 a 6

insatisfeitos

Fonte: Bain & Company e relatório oficial de benchmark da NICE Satmetrix de 2019, as duas detentoras da marca junto com o próprio Reichheld.

A marca NPS pertence hoje a três titulares: Bain, NICE Systems e Fred Reichheld. A Satmetrix, co-criadora do método, deixou de assinar sozinha: a partir de 2018 os relatórios oficiais de benchmark passaram a sair como NICE Satmetrix.

Como calcular o NPS?

A fórmula é uma subtração:

NPS = % de promotores − % de detratores

Um exemplo: com 100 respostas, sendo 50 promotores, 30 neutros e 20 detratores, a conta fica 50% − 20% = NPS 30.

Duas consequências aritméticas que quase nunca são ditas e mudam a leitura:

Os neutros somem da conta e continuam pesando. Eles entram no denominador, porque fazem parte do total de respostas, e não entram no numerador. Uma empresa com 50 promotores, 30 neutros e 20 detratores tem o mesmo NPS 30 de uma com 40 promotores, 50 neutros e 10 detratores. São situações bem diferentes e o número é idêntico.

O resultado vai de -100 a +100, não de 0 a 100. Um NPS 30 não é "30 de 100". Setores inteiros vivem no negativo, como o gráfico adiante mostra.

Quantas respostas o NPS precisa?

Essa é a pergunta que separa um NPS que informa de um NPS decorativo, e ela tem resposta numérica.

Respostas coletadas

Margem de erro

Nível de confiança

50

cerca de ±20 pontos

90%

1.150

cerca de ±5 pontos

95%

Fonte: Lewis e Sauro, "Sample Size Estimation for NPS Confidence Intervals", MeasuringU, 02/03/2021, pelo método adjusted-Wald.

Leia a primeira linha com atenção. Com 50 respostas, um NPS de 30 significa "algo entre 10 e 50". Se no trimestre seguinte ele for para 40, você não mediu melhora nenhuma: as faixas de 10 a 50 e de 20 a 60 se sobrepõem em três quartos.

É por isso que reunião de acompanhamento discutindo oscilação de 3 pontos costuma ser discussão sobre ruído. A mesma lógica do teste A/B se aplica aqui: sem amostra, a variação que você vê não é sinal.

Qual é um NPS bom?

Não existe número universal, e nem a Bain nem a NICE publicam um limiar. A comparação que elas próprias defendem é contra o conjunto de concorrentes do mesmo setor. O gráfico mostra por quê:

Gráfico: NPS médio de 11 setores, de +43 em compras online a −7 em provedor de internet

Fonte: NICE Satmetrix, 2019 Consumer Net Promoter Benchmark Study, com 68.000 respondentes nos Estados Unidos, 192 marcas, 23 setores e mínimo de 100 respostas por marca. O gráfico mostra 11 dos 23 setores; o topo geral é lojas de departamento, com 52. O domínio original saiu do ar, e esta é uma cópia hospedada pela Simmons University.

Um NPS 20 é ruim para uma loja online e excelente para um provedor de internet. Fora do setor, o número não diz nada.

Três ressalvas honestas sobre esses benchmarks, porque elas limitam o uso:

  1. A amostra é opt-in por e-mail, não probabilística. Quem responde se autosseleciona.
  2. É só consumidor dos Estados Unidos. Não existe levantamento brasileiro aberto e auditável equivalente.
  3. Os dados são de 2019. Existe uma edição de 2023, mas os domínios originais saíram do ar e os números só sobrevivem em cópias de terceiros, então não os usamos aqui.

E há um problema maior, que aparece quando se comparam dois fornecedores sérios. O levantamento do XM Institute, da Qualtrics, com 10.000 consumidores e 354 empresas, produz uma faixa que vai de 34,3 a 15,8, uma amplitude de cerca de 19 pontos. O da NICE vai de 52 a -7, exatos 59 pontos. Para supermercados, os dois quase batem (32 contra 34,3).

Dois estudos de consumidor americano, feitos por empresas competentes, chegam a escalas de dispersão radicalmente diferentes. Isso significa que "o NPS médio do meu setor" depende mais de quem mediu e como agregou do que do setor em si.

O NPS realmente prevê crescimento?

A promessa original está no título do artigo de 2003: o único número de que você precisa para crescer. Quando pesquisadores foram testar isso, encontraram algo mais interessante que um simples "sim" ou "não".

O estudo que não replicou a promessa. Keiningham, Cooil, Andreassen e Aksoy publicaram no Journal of Marketing em 2007, analisando 21 empresas e mais de 15.500 entrevistas do barômetro norueguês de satisfação. Não encontraram a superioridade do NPS sobre outras métricas de satisfação. O trabalho recebeu o prêmio MSI/H. Paul Root.

O estudo que explica quando funciona. Baehre, O'Dwyer, O'Malley e Lee, no Journal of the Academy of Marketing Science em 2021, fizeram a distinção que faltava, acompanhando sete marcas americanas de artigos esportivos ao longo de cinco anos. Eles separaram dois usos do NPS:

  • NPS transacional: perguntado logo depois de um atendimento, uma compra, um chamado.
  • NPS de saúde da marca: perguntado a uma amostra do mercado, sem gancho em evento recente.

A conclusão é a parte que importa para você: nas sete marcas estudadas, só o segundo previu crescimento futuro. Os próprios autores limitam o achado ao contexto do estudo, e a amostra é pequena, mas a direção é relevante porque o primeiro é justamente o que quase toda empresa mede: os sistemas de atendimento já disparam aquilo sozinhos.

Se você usa NPS pós-atendimento para prever crescimento, está usando a variante que a única evidência publicada sobre a distinção não sustenta para esse fim. Ela continua útil para outra coisa: achar onde o atendimento quebra.

Quais críticas o método recebe?

Três achados revisados por pares, cada um apontando para um lugar diferente:

A forma de contar injeta ruído. Dawes, no International Journal of Market Research em 2024, mostra que transformar notas em três caixas e subtrair produz mais variação aleatória do que a média simples das notas teria. Você joga informação fora e ganha instabilidade em troca.

As caixas escondem diferenças grandes. Fisher e Kordupleski, em 2019, apontam o caso mais visível: quem deu 0 e quem deu 6 entram no mesmo grupo de detratores, apesar de serem clientes completamente diferentes. Os mesmos autores levantam um problema específico de B2B: a pesquisa costuma chegar a quem usa o produto, não a quem decide a renovação do contrato.

Comparar países não funciona direto. Há efeito cultural documentado em cinco estudos acadêmicos. Em Zax e Takahashi, de 1967, numa escala de sete pontos, americanos foram 41% mais propensos a escolher respostas extremas que japoneses (19,2% contra 13,6%), e os japoneses escolheram o ponto neutro 33% mais. O padrão consolidado é esse: ocidentais tendem ao extremo, asiáticos tendem ao meio, e como o NPS só premia 9 e 10, ele amplifica o viés.

Uma ressalva que pesa contra o próprio argumento, e por isso entra aqui: num desses estudos o efeito não se replicou em escalas de dez pontos, que é justamente o caso do NPS. A literatura é consistente sobre o fenômeno e não é conclusiva sobre a escala que o NPS usa.

Uma última categoria, e aqui a crítica é de procedência, não de método. Os detentores da marca publicam números de impacto que circulam bastante: que líderes em NPS crescem mais que o dobro dos concorrentes, que o NPS explica mais de 30% da variação no crescimento orgânico, que lead indicado converte entre 20% e 60%. Nenhum deles vem acompanhado de amostra, período ou estudo referenciado. São alegações comerciais de quem vende o método, e é assim que devem ser lidas.

Como perguntar sem estragar o resultado?

Cinco decisões que mudam o número mais do que a qualidade do seu produto:

  1. Decida qual NPS você quer. Se o objetivo é prever crescimento, pergunte a uma amostra do mercado, sem gatilho de evento. Se é melhorar o atendimento, pergunte depois do atendimento. São pesquisas diferentes e não se comparam.
  2. Não dispare logo depois de um evento e depois trate como saúde da marca. O padrão clássico de pesquisa da AT&T exigia que fosse aleatória no tempo e na amostra, e não disparada por um evento recente. O NPS pós-atendimento é exatamente o contrário disso.
  3. Colete volume suficiente antes de comparar períodos. A tabela de amostra acima dá o tamanho.
  4. Guarde as notas cruas, não só o NPS. Como a subtração descarta os neutros e junta 0 com 6, a nota individual tem informação que o resultado final perdeu.
  5. Faça a segunda pergunta. "Por quê?" em campo aberto é o que transforma um número em decisão. O guia de jobs to be done trata de como perguntar sem induzir a resposta.

O NPS mede intenção declarada de recomendar, que não é a mesma coisa que recomendação feita, nem que receita. Métricas de comportamento como taxa de conversão, ticket médio e LTV medem o que aconteceu, e vale acompanhar as duas famílias.

Conclusão

NPS é uma pergunta só, com nota de 0 a 10, e resultado entre -100 e +100. O que a evidência sustenta é mais estreito do que a promessa do artigo de 2003: a versão que prevê crescimento é a que pergunta ao mercado sem gancho em evento, e não a que sua ferramenta de atendimento dispara sozinha depois de cada chamado.

O próximo passo é olhar para o seu NPS atual e responder duas coisas: quantas respostas ele tem e em que momento a pergunta foi feita. Se forem menos de algumas centenas e a pergunta vier depois de um atendimento, o número serve para achar problema de atendimento, e não para prever nada.

Perguntas frequentes

Existe benchmark de NPS brasileiro?

Não encontramos nenhum publicado com metodologia e amostra abertas. Os levantamentos disponíveis são americanos, e usá-los como régua no Brasil esbarra no efeito cultural de escala documentado na literatura. Vale notar também o critério de corte que o benchmark americano usa: uma marca só entra na base com no mínimo 100 respostas, o que é mais do que a maioria das empresas coleta por trimestre.

NPS negativo é normal?

Em alguns setores, sim. Como a escala vai de -100 a +100 e detratores são todas as notas de 0 a 6, basta que essa faixa larga seja maior que a de promotores. TV por assinatura e provedor de internet apareceram negativos no benchmark americano, o que diz mais sobre a relação daquele mercado com o cliente do que sobre cada empresa isolada.

Quantas respostas eu preciso para o NPS valer?

Com 50 respostas, a margem de erro é de cerca de 20 pontos para cima ou para baixo, o que torna qualquer comparação entre trimestres inútil. Para chegar a uma margem de 5 pontos são necessárias aproximadamente 1.150 respostas. Se você não tem esse volume, o NPS serve como leitura qualitativa, com os comentários, e não como indicador de tendência.

Qual a diferença entre NPS transacional e NPS relacional?

O transacional é disparado logo depois de uma interação específica, como um atendimento. O relacional, ou de saúde da marca, vai a uma amostra do mercado sem gancho em evento recente. A distinção deixou de ser terminologia em 2021, quando um estudo publicado no Journal of the Academy of Marketing Science mostrou que apenas o segundo previu crescimento futuro.

Dá para comparar o NPS da minha empresa com o de outro país?

Com cuidado, e provavelmente não. Existe efeito cultural documentado na forma de usar escalas: americanos dão notas extremas com muito mais frequência que japoneses. Como o NPS só conta como promotor quem dá 9 ou 10, ele amplifica essa diferença de estilo de resposta e transforma hábito cultural em aparente diferença de lealdade.

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