Este guia mostra o que o Clarity entrega, a diferença entre a promessa da página de vendas e o que a documentação técnica descreve, o que ele mascara por padrão, o que isso significa diante da LGPD e o que ele afirma sobre desempenho sem publicar número.
O que é o Microsoft Clarity?
É uma ferramenta de análise de comportamento. Enquanto o Analytics conta quantos e de onde, o Clarity mostra o que a pessoa fez na tela:
- Mapa de calor de cliques: onde as pessoas clicam, incluindo o que elas clicam achando que é link e não é.
- Mapa de rolagem: até que altura da página chegaram. É a resposta direta para "vale a pena manter esse bloco no rodapé".
- Gravação de sessão: o caminho do cursor e as ações, reproduzidos como um vídeo.
- Análises automáticas: a ferramenta aponta padrões nas sessões sem que você precise assistir a todas.
Um detalhe técnico que muda o que você espera ver: a documentação é explícita ao dizer que as sessões não são gravações de vídeo, e sim reconstruções visuais passo a passo, montadas a partir do HTML capturado. É por isso que elas carregam rápido e é por isso que alguns elementos podem não reaparecer exatamente como estavam.
O guia de heatmap trata do que ler nesses mapas, e o de teste A/B mostra o passo seguinte: transformar a suspeita em hipótese medida.
É gratuito mesmo?
É, e a afirmação é literal na documentação: o serviço é gratuito para sempre e você nunca encontra limites de tráfego. A mesma página informa que a Microsoft processa mais de um petabyte de dados de mais de 100 milhões de usuários por mês, e que não há amostragem.
Não há degrau pago, não há contagem de sessões que expira, não há cartão de crédito. Para quem vinha de ferramenta que cobra por volume, isso é a diferença entre medir e não medir.
Mas "sem limite de tráfego" e "guarda tudo" são coisas diferentes, e a própria documentação separa as duas. A próxima seção é a que ninguém lê antes de montar um processo em cima da ferramenta.
Quanto tempo os dados ficam guardados?
Aqui está a parte que a página de vendas não destaca:

Fonte: documentação oficial do Microsoft Clarity: perguntas frequentes, atualizada em 08/09/2026; retenção de dados, atualizada em 21/05/2026; e a página de visão geral das gravações, de onde vem a regra do 1% ou 10 por dia. Consultadas em 13/09/2026.
Nos primeiros 30 dias, as gravações ficam disponíveis. Depois disso, o Clarity mantém 1% delas, ou 10 por dia, o que for maior, por 9 meses. Mapas de calor e dados de clique também ficam 9 meses.
Há ainda dois tetos que a documentação declara:
- 100 mil sessões por projeto, por dia.
- 100 mil visualizações de página por mapa de calor.
Vale dizer o que isso significa e o que não significa. Não significa que a ferramenta é ruim: 100 mil sessões diárias é mais do que a maioria dos sites brasileiros tem. Significa que gravação de sessão não é arquivo histórico. Se você quer comparar como as pessoas usavam a página antes e depois de uma mudança feita há três meses, o "antes" provavelmente não existe mais.
A regra prática que sai daí: quando encontrar uma gravação que explica um problema, salve ou anote na hora. Ela pode não estar lá no mês que vem.
Há uma tensão de comunicação que vale registrar, porque o blog cobra isso de todo mundo: a mesma documentação afirma, numa seção, que não há amostragem, e descreve, em outra, a retenção de 1% das gravações depois de 30 dias. As duas frases podem ser verdade ao mesmo tempo, porque tratam de coisas diferentes, o que é coletado e o que é guardado, e a distância entre elas é grande o suficiente para confundir.
O que ele mascara por padrão?
Gravação de sessão captura a tela de uma pessoa real, então essa seção é a mais importante do artigo para quem opera no Brasil.
O Clarity tem três modos de mascaramento, e o padrão é o do meio:
Modo | O que mascara |
|---|---|
Strict | tudo |
Balanced (padrão) | apenas o que a Microsoft classifica como sensível: números e endereços de e-mail |
Relaxed | o mínimo |
Em todos os modos, campos de formulário e listas suspensas ficam mascarados, e isso não é configurável.
Três buracos que a própria documentação admite:
- Conteúdo dentro de tags de estilo não é mascarado.
- Parâmetros de URL só são mascarados mediante pedido ao suporte, e não por configuração sua.
- O mascaramento não é retroativo. Se você começou em Relaxed e mudou para Strict, o que já foi gravado continua como estava.
O terceiro é o que mais machuca, porque a descoberta costuma vir depois.
Sobre LGPD, uma observação de escopo. A documentação de consentimento do Clarity cita o Espaço Econômico Europeu, o Reino Unido e a Suíça. Ela não cita o Brasil nem a LGPD. Isso não quer dizer que a lei brasileira não se aplique, quer dizer que a ferramenta não foi configurada pensando nela: a responsabilidade de definir base legal, avisar o titular e obter consentimento, quando for o caso, é sua. O padrão Balanced mascara número e e-mail, e não mascara, por exemplo, um nome digitado num campo que você marcou como não sensível.
Se o seu site tem área logada, prontuário, proposta ou qualquer tela com dado de cliente, a decisão sensata é Strict, e não o padrão.
O Clarity deixa o site mais lento?
A Microsoft afirma, em dois textos oficiais, que não há impacto mensurável no desempenho. É bom que afirmem, e é justo dizer o que falta: eles não publicam número nenhum. Não há base de conhecimento com o peso do script, não há variação declarada de métricas de carregamento, não há amostra.
Também não encontramos medição independente com metodologia publicada. Os números que circulam por aí sobre o peso do arquivo e o atraso que ele causa não têm fonte rastreável, então não os reproduzimos aqui.
O que dá para fazer é medir você mesmo, e é barato: rode o PageSpeed antes de instalar e depois, na mesma página e no mesmo dia. É a única medição que vale para o seu caso, porque o impacto de qualquer script depende do que mais já está carregando ali.
Quando usar e quando não usar?
Vale a pena quando você tem uma página importante convertendo abaixo do esperado e não sabe por quê. Meia hora de gravações costuma responder o que semanas de discussão não respondem. Também vale para conferir se aquele bloco no fim da página é visto por alguém, o que o mapa de rolagem resolve em minutos.
Não vale como fonte de verdade sobre volume. Quem conta acesso é o GA4, e o Clarity é a lente qualitativa ao lado.
Exige decisão antes de instalar em site com dado sensível na tela, pelo que a seção de privacidade mostra. Configurar o mascaramento depois não conserta o que já foi gravado.
Sobre integrações, um cuidado: o Clarity aparece ligado ao Search Console apenas como método de verificação de domínio, não como integração de dados. Quem espera ver consulta de busca dentro do Clarity vai se decepcionar.
Conclusão
O Clarity entrega mapa de calor, mapa de rolagem, gravação de sessão e sinais de frustração sem cobrar e sem limite de tráfego, o que é uma oferta difícil de recusar. Os limites reais estão na retenção, com gravações completas por 30 dias e uma fração depois disso, e na privacidade, onde o padrão mascara pouco e a documentação de consentimento sequer menciona o Brasil.
O próximo passo, se você for instalar, é decidir o modo de mascaramento antes de colar o script, olhando para a tela mais sensível que o seu site tem. É a única decisão da ferramenta que não dá para corrigir depois.




